Eu odeio este morro

“Eu odeio este morro”

Frases que digo e repito, e continuo dizendo porque continuo indo até o bendito morro. Mas se eu odeio tanto, por que continuo a fazer?

Inexplicável, eu sei…mesmo quando sua saliva está tão grossa para conversar com sua própria sombra. Mais inexplicável quando surge aquele senhor, já além dos seus 60 anos querendo contar sua experiência de vida e como começou a correr. E eu, infelizmente, não consigo dizer que me falta ar para dialogar, não obstante não me falta educação para ignorar, apenas escuto e faço “uhum” durante os próximos 20 minutos de continua subida e felicidade alheia. Continuo a pensar que pecado cometi em outra vida, para voluntariamente sofrer todo fim de semana, acordando cedo, passando frio e regurgitando todo meu café da manhã comido às pressas para não perder o bonde.

E tem gente que ainda acha que eu falo continuamente… acho que perdi minha forma nestes últimos meses, a que nunca tive, do qual minha vontade se resume a permanecer no mundo mágico da Raïssa escutando minha música isolada da Terra. Se eu pudesse dar uma dica para a humanidade é aquela que me disseram há uns 15 anos atrás… sim a corrida é o esporte mais barato. E você ficará desacreditado com o TrailRunning, como eu estou e como eu fiquei…mas por alguma acaso do destino, eu conheci o ciclismo e Deus me valha…nunca gastei tanto na minha vida, até já sinto falta do Trail.

Detalhe que o Trail se tornou chato demais neste último ano. São brigas de likes, egos, quem ganha mais brinde acreditando estar sendo patrocinado, uma publicidade barata. Deixei de viver meu mundo mágico da trilha, porque parece que se tornou um mundo de compromissos, como o lá de fora, onde temos responsabilidades. Batemos ponto, esperamos o dia do ordenado, onde somos seres comuns, pagando boletos, e a trilha…a trilha me fazia esquecer. Fazia. Não imaginei que sentiria falta, daqueles 15 anos atrás. Corríamos sabendo o pace de cor, mal olhávamos nosso Timex, ganhávamos camisetas de algodão e sonhávamos que a corrida poderia ser reconhecida um dia.

Na realidade, aguardei para se reconhecer outros valores. E eu continuo a correr, para perder aqueles quilinhos que a genética nunca me favoreceu.  

Raïssa Zortea

Trailrun Raiz

Trailrun Raiz

Um belo dia, numa trilha tão, tão distante…

Alguém teve a infeliz idéia de rotular o Trailrun, provavelmente para “Bullynar” algum desafeto  e de quebra promover seus pretensos atributos. Ainda não superada a dualidade asfalto x trilhas, foi chegada a hora de dividir o público interno entre “raíz” e “nutella”.

Assumindo pretensamente o “lado branco da Força”, a facção Raiz tem como principal característica fazer chacota com o “lado negro”. A tipificação inicial da aldeia “Massaranduba” é basicamente de protesto: camisas xadrez de algodão ou flanela em oposição aos tecidos inteligentes; tênis minimalistas (sem meias) preferencialmente de marcas emergentes ou sandálias para derrubar a indústria dos tênis caríssimos; garrafa de água na mão e shorts curtos ou jeans esfiapados.

Cabelos estilo Jimmy Olsem e barbas “Rivs wannabe” também foram expedientes usados. A Nutrição flertou desde a dieta “Paleo” ao Veganismo. Nossos corredores-Urtigão foram se embrenhando no mato até sumirem do cenário.

Os corredores da vida real, os expoentes, os que ganham corridas, evoluíram atleticamente, construíram uma boa relação com o mercado e ganharam a simpatia dos demais praticantes. Alguns até tiram do esporte seu sustento, sem partido ou lado a representar.

A brincadeira continua a dividir quem ainda busca identidade com as trilhas e montanhas, vão ladrando enquanto a caravana passa… UP!

Por Emílio Sant’Ana

Gestão e manejo de trilhas – para correr e para corridas

Gestão e manejo de trilhas – para correr e para corridas

Aparentemente parece simples inserir praticantes ou nutrir a paixão e o condicionamento específico no Trailrun: basta soltar o povo no mato e mandar correr, pendurar umas fitas ou dar um arquivo .GPX que está tudo resolvido certo? Não!

Coloque por um instante aquela sua primeira experiência de lado e visualize outros pontos de vista.

Em muitos lugares no Brasil e no Exterior, trilhas são ponto turísticos ou acessos a pontos turísticos como picos, cachoeiras e mirantes. Noutros tantos são usados para observação de fauna e flora, para uso turístico e até científico e, pasmem, como estradas usadas diariamente.

O uso esportivo é compartilhado principalmente por montanhistas, escaladores, trekkers, canoístas, voadores, pescadores, motociclistas, ciclistas e corredores. Desse universo, pouquíssimos usuários ou associações se dedicam à sua manutenção: basicamente os montanhistas. Fora desse universo cabe à associações ambientalistas ou de apoio à unidades de conservação o cuidado desse nosso tesouro.

Trilhas deveriam ser cuidadas para serem usadas, muito usadas: há benefícios não só referentes à atividade física praticadas nelas, mas também à simples exposição à natureza que essas trilhas permitem.

Trilhas mal cuidadas se fecham, se perdem e seu destino será “o fim da picada”! Interessante seria que houvesse informação para o fácil acesso às trilhas; há muitos livros que as catalogam, mas pouca divulgação.

Sua estrutura preferencialmente deveria ser a de “single-track” onde passa uma pessoa, com deslocamento fluido e rápido para usuários e equipes de manutenção e resgate; imagine uma remoção numa trilha estilo “picada”? Há de se pensar também na segurança e integridade do usuário com podas frequentes e retirada de obstáculos, mesmo os iminentes (árvores e galhos prestes à cair).

Quanto melhor o estado da trilha, mais fácil será a manutenção, possibilitando esforços breves e mais frequentes. Na medida do possível a adoção de sinalização permanente que informe sobre a navegação e eduque quanto à conservação da trilha e do meio ambiente.

Finalmente, a saúde da trilha depende da sua boa e frequente utilização. Há disponíveis várias técnicas de manejo de conservação e pode ser estimulada a formação de grupos de gestão junto à proprietários, unidades de conservação e órgãos ambientais municipais.

Nossas trilhas são patrimônio cultural, esportivo e ambiental, cuidemos com zelo. UP!

Por Emílio Sant’Ana

O sonho da “Carreira custo zero”

O sonho da “carreira custo zero”

Já fui abordado por pessoas (nem atletas eram) com a seguinte proposição: se eu entrar nessa modalidade, como eu faço pra ser patrocinado?

Daí pra cá somam-se:

* atletas inexpressivos (esportivamente) anunciados como “confirmados” em eventos de corrida;

* pessoas com visibilidade (likes) confundidos com “bons atletas”;

* novos corredores que consideram que postagens (com ou sem likes) substituem desempenho e experiência;

* atletas que investem mais ($$$) em equipamentos de marca, suplementos e impulsionamento de postagens do que em orientação profissional em treinamento, nutrição, fisioterapia ou em boas provas (com desafio técnico e atletas de ponta inscritos);

E muito mais…

Qual seria o caminho para uma relação interessante entre empresas e atletas no caminho para um investimento que se reverta tanto em vendas como em desenvolvimento esportivo?

O que eu tenho observado nos últimos anos:

1.       Potencial – Idade compatível com desempenho máximo, integridade física que permita resultados em médio e logo prazo e uma modalidade que tenha potencial visibilidade para a marca/empresa;

2.       Resultados – absolutos (campeão, podium, ranqueamento) e relativo worldclass;

3.       Relevância do atleta – estadual, nacional e internacional;

4.       Projeto – metas e prazos para conquistas;

5.       Infra-estrutura – equipe técnica.

Uma verdade precisa ser contada: um destaque esportivo vende por décadas! (vide Michael Jordan, Usain Bolt, Ronaldo Fenômeno, Kilian Jornet e recentemente Gerhardt Berger na campanha da Heineken 0)

Ignorar essas realidades se traduz em:

·         Encolher o potencial esportivo local, não desenvolvendo resultados esportivos expressivos;

·         Vendas em curtíssimo prazo;

·         Atrofia do mercado esportivo (novos consumidores que viriam com as conquistas); quantos tênis Rainha foram vendidos no Brasil após a medalha de prata olímpica em 1984? Um boom de mais de uma década!

A matemática é simples: investimento que gera resultados, que geram vendas, que garantem novos investimentos – a partir daí o ciclo garante vendas e inventimentos crescentes em médio e longo prazo.

Hoje, no Brasil, no cenário Trailrun quem contribui para essa estagnação:

·         A marca que ao invés de bancar bons atletas e seus projetos, distribui material esportivo em troca de exposição a custo mínimo;

·         A empresa que igualmente enxuga custos sociais com vendedores e planos de marketing e patrocínio esportivo e investe em influencers, que usam o tempo que poderiam estar treinando pendurados no whatsapp e mídias sociais em troca de % de vendas;

·         O “agente” que faz o intermédio entre empresas/marcas e atletas/influencers; (proporcionalmente esse ganha mais que as demais partes envolvidas)

·         O organizador de provas que troca likes por inscrições, estadias e passagens (que não sejam para destaques esportivos que venham enriquecer seu Line-up).

Pra onde a gente corre agora?

O Trailrun (inclua-se a Corrida de Montanha e o Skyrunning) é ainda como o bebê que tenta se virar para ficar de bruços; ao que parece vamos continuar batendo palinha e estalando dedos, animando esse bebê a se virar. Enquanto isso uns poucos estão indo treinar e competir no exterior, porque lá a criança já está a andar. UP!

Por Emílio Sant’Ana